Semana Santa em Congonhas: palco de Fé, Emoção e Arte

Vai começar uma das celebrações mais populares do Brasil: de 25 de março a 1º de abril, em Congonhas (MG), os fieis são convidados a vivenciar todo o clima de fé, devoção e reflexão, revivendo o caminho de Cristo, da chegada a Jerusalém até o Calvário e a Ressurreição. Por uma semana, o cenário do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, “Patrimônio Cultural da Humanidade”, torna-se o palco para que artistas locais encenem Passagens Bíblicas do Novo ao Velho Testamento.

As celebrações, sermões e procissões se estendem também por todo o eixo histórico, que liga as Igrejas de Nossa Senhora do Rosário, Matriz de N. Sra. da Conceição, Matriz de São José Operário e a Basílica, que, juntas, representam a Sagrada Família: Jesus, Maria e José. As demais comunidades destas paróquias como as da Mãe da Igreja, do Jardim Profeta, igualmente participam deste período especial para os católicos. As novidades este ano ficam por conta da nova iluminação das Ladeiras e a maior valorização da Igreja de São José Operário.

A Prefeitura apoia o evento por ser de grande importância cultural e por envolver boa parte da população, além de fomentar o turismo e consequentemente o comércio. Mais de 1mil pessoas contribuem de para a realização da Semana Santa, entre voluntários, irmandades, festeiros, religiosos e servidores de diversas Secretarias, tais como Cultura, Obras e Gestão Urbana.

 

 

 

 

Congonhas: Cenário de Tradição e Fé

 

Diante de um Monumento da Humanidade, o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, onde Aleijadinho esculpiu as “Cenas da Paixão de Cristo”, centenas de artistas, figurantes e anônimos, se encontram. O objetivo é um só: reviver, à luz dos novos tempos, a mensagem de fé e devoção, imortalizada pela trajetória de Jesus Cristo na Terra.

No palco instalado em frente à Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, são encenadas as Passagens Bíblicas e realizadas parte das celebrações e Sermões. A encenação conta com participação de cerca de 60 atores, além de outras dezenas de figurantes.

Como o tema da Campanha da Fraternidade este ano é “Fraternidade e Superação da Violência”, as cenas serão mais intensas. “A população de Congonhas tem na Semana Santa uma das celebrações de que mais gosta. Por isso precisamos ousar, respeitando a tradição. Modificamos, ano a ano, o texto das encenações porque, se permanecer inalterado, ele não chama a atenção, mas preservamos a história de Jesus, que é uma só”, explica o responsável pela direção cênica do espetáculo, José Félix Junqueira, o Zezeca.

Segundo ele, um ano fazemos o Cristo mais conciliador e pacificador, em outro, ele se apresenta mais forte. “Desta vez haverá uma cena do Velho Testamento em que Abraão tem sua fé testada por Deus, que ordena a ele que sacrifique seu filho. A peça estabelecerá relação entre esta passagem e a do Novo Testamento em quem o Filho de Deus morre para salvar a humanidade”, adianta Zezeca.

Figurinos

O figurado Bíblico que acompanha as procissões é composto por mais de 200 pessoas, representando desde Adão e Eva, passando pelo Velho Testamento, até chegar ao Novo e culminando com a figura de Jesus Cristo. Servidores e voluntários sempre fazem adaptações no figurino das personagens bíblicas, levando em consideração a Campanha da Fraternidade daquele ano.

Quando o tema esteve ligado à misericórdia, toda indumentária foi branca. Nos anos seguintes, passou a ser aproveitada na Procissão do Triunfo de Nossa Senhora, do Domingo da Ressurreição à noite, em que aparecem os personagens do Novo Testamento e que foi resgatada pelo Padre Paulinho anos atrás. Este ano, como o tema está mais ligado a ações e atitudes, foram feitos basicamente reparos e pequenas adaptações.

Há outros figurinos fixos e, entre estes, um que se tornou outro elemento diferencial a celebração realizada na Cidade dos Profetas: a versão em tecido das vestes utilizadas por Aleijadinho na produção das imagens em cedro que compõem as sete cenas da Paixão de Cristo e que se encontram nas seis Capelas no Jardim dos Passos e dos 12 Profetas do adro da Basílica, também situado no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Um outro figurino é formado por peças de mais de 50 anos, de autoria de Tia Vick, Tia Mimi, Tia Ana e Wilson Ribeiro.

Qualificação

A Semana Santa em Congonhas abre inúmeras oportunidades para qualificação da economia criativa local. Para produzir o evento são realizadas diversas oficinas de teatro na Casa da Semana Santa, espaço localizado no antigo prédio da Rádio Congonhas, ao lado da Basílica. Lá são confeccionados e conservados os figurinos e cenários. O evento é oportunidade ainda para formação de núcleos de atores, entre adultos, crianças e idosos, a fim de prepará-los para as encenações. Simultaneamente acontecem oficinas de adereços, cenários e figurinos.

 

Momento de Reflexão

 

O pároco da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, Padre Paulo Barbosa, é um dos principais responsáveis pela mensagem de fé e devoção, simbolizada na Semana Santa de Congonhas. Na entrevista a seguir, ele revela detalhes dos preparativos, do tema da Campanha da Fraternidade, e ainda do espírito de fé que marca esta época do ano em Congonhas:

 

Os temas da Campanha da Fraternidade, inicialmente, contemplaram mais aspectos ligados à religiosidade. Ultimamente eles abordam questões como a injustiça, exclusão e este ano a violência. Como a Semana Santa de Congonhas tratará este tema?

Padre Paulinho – A Igreja escolheu o tema “Fraternidade e Superação da Violência”, porque o Brasil sofre com a violência racial, em família, na escola, contra a mulher, genocídio, ameaças como aborto, desemprego e situação econômica. A superação da violência virá pelos caminhos da fraternidade: a cultura da paz, do perdão, da reconciliação, do ponto de vista social e político com a produção de políticas públicas para melhoria das escolas, da cultura, do meio ambiente. Todos os temas que constam do programa, desde o Domingo de Ramos até o Domingo da Páscoa, estão relacionados à superação da violência. Pedimos aos responsáveis pelas encenações que eles sejam abordados. Na Igreja, a liturgia e os sermões também tratarão da Campanha da Fraternidade. É preciso que durante a Semana Santa tratemos do aspecto tradicional como da realidade atual, trabalhando a cultura da paz. O Jesus Cristo que morreu no passado continua vivo hoje na luta, na batalha do dia a dia de todos que acreditam no ideal deste Reino, que tem como prioridade a justiça, a paz, a fraternidade e a solidariedade.

Por que este ano as procissões do Cristo Fragelado na Segunda-feira Santa e a que conduzirá a imagem de Nosssa Senhora das Dores, na quarta-feira, terminarão na Igreja de São José Operário, situada na Ladeira Bom Jesus?

Padre Paulinho – A nossa programação é conjunta entre a Paróquia de N. Sra. da Conceição e  a de São José Operário e percebemos que, nos últimos anos, esta última ficava em segundo plano, então é importante conjugarmos esta comunhão entre as paróquias que realizam a Semana Santa. Não se perde o cenário do Bom Jesus, porque lá acontecerão vários momentos como o início do Domingo de Ramos, o início da Procissão do Encontro, o Lava Pés, a encenação da Condenação, Paixão e Morte de Cristo e a Bênção do Santíssimo Sacramento. Na segunda-feira, após a procissão, haverá o Sermão do Pretório na Igreja de São José Operário e as pessoas poderão se sentar e refletir sobre todo o processo que levou Jesus a Cruz. Na quarta-feira, Dia de N. Sra. das Dores, novamente valorizaremos à Igreja de São José, que há pouco completou 200 anos.

As especificidades do acervo arquitetônico, cultural e religioso de Congonhas, com a Igreja do Rosário, construída por escravos; a Matriz de N. Sra. da Conceição, que possui a maior nave barroca sem coluna do Brasil; a Igreja de São José Operário, que está entre os últimos templos católicos edificados em estilo Rococó; e a Basílica do Bom Jesus, que atrai milhares de romeiros a Congonhas e é considerada Patrimônio Mundial, representando juntas a Sagrada Família, torna esta Semana Santa diferente das realizadas em outras cidades?

O cenário de Congonhas já é por si só religiosamente preparado, não apenas para uma encenação, mas para a religiosidade, para que os fiéis rezem e possam se dedicar a Deus. Por isso milhares de fieis das diversas comunidades de Congonhas e até de outras cidades participam de nossa Semana Santa.

Que mensagem o senhor quer passar para o católico, dias antes de começar a Semana Santa?

Padre Paulinho – Fazemos uma convocação cristã para a maior semana do ano, não cronologicamente, mas com relação ao tempo da qualidade da fé, do Kairós, que é o tempo de Deus, para refletir, rezar, buscar a conversão, pensar na própria vida, em amar o outro, superar as violências como os preconceitos. Que a Semana Santa sirva para a gente se encontrar consigo mesmo, com o outro na comunhão, no encontro com o Pai, tendo Maria Santíssima nos ajudando tanto a carregar a cruz, mas também a viver a ressurreição da vida nova. Convidamos todos para essa belíssima Semana Santa de Congonhas.

Enquanto Padre Paulinho encerrava a última resposta da entrevista, os sinos da Igreja Matriz de N. Sra. da Conceição cumpriam propósito parecido com o das palavras do vigário: chamar o povo, mas para o período do Setenário das Dores, que antecede à Semana Santa.

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